Entre 16 de outubro de 2025 e 30 de março de 2026, o concelho registou 92 incêndios rurais, o que corresponde a uma média de 0,56 ocorrências por dia — ou seja, um incêndio a cada 1,8 dias.
Apesar de incluir meses tradicionalmente menos críticos, estes números demonstram uma pressão operacional constante sobre os Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez.
Germano Amorim defende assim o fim do modelo DECIR e a profissionalização total dos bombeiros após sucessão de incêndios no Alto Minho
Face ao elevado número de incêndios rurais deflagrados nos últimos dias no concelho de Arcos de Valdevez e nos municípios vizinhos, o presidente da Direção dos Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez, Germano Amorim, defendeu hoje uma reforma profunda no modelo nacional de combate aos incêndios rurais, propondo o fim do atual DECIR e a criação de um dispositivo permanente e profissionalizado, ativo durante todo o ano.
Segundo o dirigente, a situação operacional vivida à data de hoje demonstra que o modelo sazonal “já não responde à realidade climática, territorial e criminal que o país enfrenta”.
“O DECIR é um modelo do passado para um problema do presente”
Germano Amorim afirma que o dispositivo, tal como está concebido, se tornou insuficiente e desajustado.
“Hoje, em Arcos de Valdevez e nos concelhos vizinhos, temos múltiplos incêndios ativos. Isto não é exceção — é a nova normalidade. O risco é permanente. O apoio também tem de ser.”
O responsável sublinha que os bombeiros estão no terreno muito antes da ativação oficial do DECIR, enfrentando ocorrências exigentes com meios limitados, equipamentos desgastados e viaturas que acumulam avarias devido ao esforço contínuo.
Alterações climáticas, desorganização territorial e ignições criminosas: “O país mudou, mas o dispositivo continua igual”
O advogado, presidente dos Bombeiros de Arcos de Valdevez aponta quatro fatores que tornam o modelo sazonal obsoleto:
- Alterações climáticas que prolongam e intensificam o risco
- Desorganização territorial e florestal
- Falta de cultura de prevenção
- Aumento das ignições de origem criminosa
“O DECIR continua a funcionar como se estivéssemos nos anos 90. Hoje, o fogo não tem estação. Só o dispositivo é que continua a ter.”
“É um modelo que chega sempre tarde”
Germano Amorim critica a lógica de reforço apenas durante alguns meses do ano, afirmando que esta abordagem “não só é ineficaz, como coloca bombeiros e populações em risco”.
“À data de hoje, com vários incêndios ativos na região, continuamos sem o reforço que só chega no verão. Isto não é planeamento. É improvisação.”
Profissionalização total: “Portugal não pode continuar a depender de um sistema assente no voluntariado para enfrentar um risco permanente”
Um dos pontos mais fortes e polémicos da posição de Germano Amorim é a defesa da profissionalização total do dispositivo de combate aos incêndios.
“Não podemos continuar a pedir a voluntários que enfrentem um risco permanente com estruturas temporárias. O país precisa de bombeiros profissionais, dedicados a tempo inteiro, com carreiras estáveis, formação contínua e meios adequados.”
O dirigente sublinha que o voluntariado é uma força essencial e insubstituível, mas que não pode ser a base estrutural de um sistema que enfrenta riscos permanentes, complexos e cada vez mais violentos.
“O voluntariado deve ser valorizado, mas não pode continuar a ser o pilar central de um sistema que exige resposta permanente, técnica e altamente especializada.”
Um apelo a uma reforma estrutural
Germano Amorim defende que Portugal precisa de um modelo permanente e profissionalizado, com:
- Equipas profissionais reforçadas durante todo o ano
- Manutenção contínua de viaturas e equipamentos
- Investimento estável e não sazonal
- Articulação operacional permanente entre bombeiros, proteção civil e forças de segurança
- Estratégias de prevenção que não dependam do verão
“Não podemos continuar a reagir ao fogo. Temos de antecipá-lo. E isso só se faz com um dispositivo permanente, profissionalizado e devidamente articulado.”
“A polémica não está no que digo. Está no que o país continua a não fazer.”
Germano Amorim reconhece que as suas declarações podem gerar debate, mas considera que a verdadeira polémica reside na falta de ação.
“A sucessão de incêndios que estamos a viver hoje na região é a prova de que o modelo atual falhou. A polémica não está nas minhas palavras. Está na inação.”